Seguidores

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pobre diabo


A poesia triste é a que vende;
Pois o público quer chorar,
A dona quer o ombro do amor,
E ele quer uma oportunidade para a conquista.
A poesia trágica é a que fica,
A história faz questão de relembrar,
Os críticos elegem como profunda;
A posteridade se apega a ela e diz que é sua,
Tão bela a poesia que faz chorar.
E é por isso e por outros tantos motivos,
Que escrevo tão triste assim,
No desejo de tocar alguém,
Alguma alma perdida nesse mundo além e infindo.
É por isso que me esforço para não apagar essa tristeza
E mostrar aqui toda sua beleza,
Aproveitar o que não tem jeito mais.
Fui criança um dia e rimei palavrinhas,
Cresci e rimo tristezas
De um poeta que morre afagando flores apáticas.
Um dia triste me fez este poema,
Que por acaso alguém vai ler e rir,
E nada do meu esforço terá valido a pena,
Pois de que adiantam lágrimas para quem não está triste?
Triste sou eu, pobre diabo,
Que se perdeu nos versos de um poeta trágico,
Mas que nem assim vendeu nem ficou na história,
Que já não se aguenta mais de tanto fato.

Jane Santos

terça-feira, 5 de abril de 2011

Um dia, no bosque



Um dia, no bosque, colhi flores azuis
Para pousar nas tuas nuas mãos,
Para alegrar teus olhos grandes e negros,
Para ganhar tua simpatia e roubar um beijo.
Um dia, sozinho no caminho seco
Eu desenhei no chão teu nome,
E, poeta atordoado, não soube e nem pude
Dali em diante saber o meu sem ti.
E fui destrambelhadamente conquistando os pássaros,
Reunindo numa sacola suas cantigas doces e fugidias,
Tentei prendê-las pra ti,
Fazendo uma caixinha de música natural.
A memória desse amor me perseguiu por anos,
E sem poder nem querer esquecer esse fato,
Fui escrevendo versos, prosas e relatos
Sobre uma menina que vi sentada à beira do rio,
Andando no bosque,
Escostada ao poste,
Correndo para longe de mim.
E como posso, poeta que insisto ser,
Esquecer os olhos, os dedos com as flores
E a boca sem nenhum susurro?
É tortura viver anos com a lembrança
Do não realizado,
Morrerei apaixonado,
Carregando aquele beijo que só eu dei para o túmulo.

Jane Santos

domingo, 3 de abril de 2011

Em tempos de separação



Eu nem notei a sua chegada,
Seu perfume você deixou em outros lugares
E eu nem senti sua presença.
Também não senti o processo de mudança da alma,
Não percebi o quanto eu te amava,
O quanto doía fundo a insensibilidade
De quando se sabe a verdade,
De quando não se é mais única.
Nem notei a diferença do seu sapato camurça,
Presente em uma data qualquer...
Não percebi-me mais mulher,
Não sei mais os segredos da conquista,
Nem das pernas que despistam a todos em correr.
Esqueci de como se fala
Quando se está enamorada,
É o mal do costume de uma vida casada,
É o mal de ter-me feito um pedaço de ti
E ter-te visto o inteiro de mim.
A dor da despedida nunca senti,
E agora me depedaço toda em lamúrias,
Em saudades e loucuras,
Em querer rever teus olhos, sentir o cheiro de
Perfume suado,
Em te ver voltar cansado do trabalho,
Em te ver recair sobre o meu colo,
Pedindo, suplicante, um pouco de amor.
É essa dor, essa desventura,
Que me arranca da paz dessa penumbra
E me põe a correr o olhar e porcurar-te na esquina,
A falar com alguma vizinha,
A contar anedotas políticas
Ou simplesmente de que não suporta sem mim.

Jane Santos