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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Graça



Faça-me a graça

De nunca sumir do meu caminho
De ser a estrada do infinito
 De ser enfim, meu bem,
A vida minha.
Faça-me a graça de acompanhar meu acordar,
Meu tomar café
Meu trabalhar


Meu chegar


Meu adormecer no colo teu.


Encha-me da tua luz


Energia positiva


Que se expande


Em tempo todo


E todo lugar.


Esse carinho eu quero


Dessas mãos que massageiam panelas


Copos de vidro e plástico,


Massageiam o meu ego


Livros


Pernas


O meu corpo deitado,


Massageiam e passageim


Sobre mim e minha alma.


Não quero nunca perder essa sorte


Essa graça de ser ao seu lado.


Quero o beijo


O abraço,


O suspiro,


O cansaço.


Dê-me enxerto de amor


E te darei rosas


Sabor


Palavras.


E te darei eu mesmo


Como presente de aniversário


Gracioso e bem embalado.


E te darei o mundo


As estrelas em fotografia,


O mar em revelia


Os vulcões na TV,


As histórias em quadrinhos.


E eu te darei carinho


Brigadeiro de copinho


Promessas diversas de felidade


E todo o espaço da cidade


Você irá ter.


A igreja


A praça


Os postes


As luzes.


As luzes...


E eu te darei as luzes


Que nunca se apaguem.


Jane Santos

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

João Cunha



Minha raiz fincou-se no chão
Desta terra dura,

Amargura corroendo o estômago,
Água impura,
Escorrendo no resto de gente
Que respira arquejando já,
No fim da tardezinha,
Uma rede estendida,
Uma lamparina pra alumiar.
O prato de comida
É a farinha, é a avoante tostada.
Ossinhos saborosos,
A óleo e sal,
Alimento só por só
Que me sustenta a andar.
A labuta é grande,
O sol é impertinente,
Resolve nunca amenizar,
A planta morre
Como morre o plantador,
Água não corre
Não sacode a terra no fundo do rio,
Tudo vazio,
Sem brilho e sem cor, 
Tudo coisa vã.
Dizem uns que se não tem livro,
Morre a alma,
Não tem mente sã.
Mas a letra não me entra,
Aqui nessas vistas embaçadas,
Nem as regras gostam de mim,
São por demais atrapalhadas.
A minha regra é a terra,
É a planta, o meu quintal.
Minha regra é minha fianga,
É o feijão, o milharal.
Não careço de tanta coisa,
Educação da mãe recebi.
Respeitar o semelhante,
Ir à missa,
Se benzer na encruzilhada,
Não insultar a besta fera,
Não contar estrelas,
No fim da noite rezar.
Pai nosso que estais no céu
E o céu era o sono
Que não dava pra adiar.
Aprendi com moça de família não bulir,
Mas pra isso não tive escola,
Escola foi o caminho,
Escola foi a luta.
Choro tanto esse destino,
Essa vida setaneja,
Ao desprezo das políticas,
À margem do desespero.
Será que sobrevivo,
Será que no meu chão morro?
Proque meu chão se desmorona,
Tá virando um alvoroço,
Vem a tal da mídia, vem a Globo,
Vem a cerveja, vem o cara morto.
E me dizem: atrasado!
Velho louco!
Como pode não ter TV,
Como pode nunca ter
Provado miojo?
E me dizem: abestado!
Velho broco!
Como pode achar que o mundo
Fica só no seu miolo?
Velho torto, desembestado,
Casado com essa enxada velha,
Faz só o que dá na telha,
Nem mulher arranja nunca.
Vive preso nessa espelunca,
Essa casa de chão batido,
Parede de barro socado,
Alisado, pintado com cal e só?
Como pode esse bocó
Não saber do mensalão?
E eu digo: posso e como posso!
Não saber dessa invasão.
Sou só, abandonado,
Pais mortos, irmãos viajados.
Sou só, não preciso mais,
Meu futuro não é o cais,
Meu futuro é a cova,
É esse chão que me coonhece, não desdenha,
Não esquece,
É esse barro debaixo da unha,
E dirão: olhem o Cunha,
Morreu sem saber nada,
Tedinho, tão bonzinho, fará falta!
E dirão: olhem o Cunha,
Se foi tão cedo,
Deixou só semente plantada.
Coitado. Ô coitado, era uma boa alma!
Se quem de criança não tem livros,
De livros não viverá,
Se não leio enquanto vivo,
Enquanto morto não me caberá.
E por isso se tiver filho,
Que difícil muito será,
Mandarei o cabra pra escola,
Pra à professora escutar.
Apesar de amar a enxada, a terra e a enxurrada,
Mais admiro o homem
Que sabe o universo estudar.
Meu universo sou eu mesmo,
Preso no meu medo
De aprender do começo,
Tão velho e sem paciência,
A coisa da ciência,
A coisa do indagar.
Sou o João,
O João Cunha ninguém,
Não quero ir além,
Quero aqui me enterrar.
E na minha tumba assim se escreva:
Aqui jaz a alma 
Que preferiu a semente como estudo,
A enxada como escudo,
À simplicidade como forma de se guiar.

Jane Santos

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Nirvana




Enquanto você corre
Eu te amo além das forças,
Eu vivo o intensivo
Do lado a lado com você.
Do sentimento adocicado,
Da mão colada,
Do beijo bom.
Enquanto você sonha,
Eu realizo aqui o instante,
O fato de estar perto,
O corpo, a face, o peito,
Marcando à tinta de batom.
Enquanto a noite se espalha,
Aqui a calma se derrama,
Perde o tempo,
Pede o momento,
Me embala, me afronta.
Enquanto lá fora é dinheiro,
É direito, é norma,
Aqui é carinho, apego,
É pulsar sem hora,
É ser e estar
Mais ato e menos verbo,
Mais fato e menos “espero”,
É a coisa do amor que toma posse,
Que coloniza o meu ser.
Enquanto tudo o que se faz e tudo que se pensa
Aqui é mais carne, é mais sangue,
Coração, transfusão, romance.
Doação do que se é,
Do que se pretende,
Do se crê.

Jane Santos

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Quarto da bagunça


O quarto da bagunça está mais belo,
Pois nele entro e me espero um pouco,
Espero a coragem, o efeito do remédio
Anti-mofo.
Nele assim me permaneço, 
Minutos como se fossem eternos,
Horas como séculos,
E as caixas,
Todas elas espalhadas,
Enfeitadas com a poeira do tempo.
Umas flanelas serão ajuda indispensável,
Além da força que deverei fazer brotar,
Para cascavilhar os textos desbotados,
As agendas cafonas,
Os marcadores amarelados.
Deverei fazer surgir a calma,
Para decidir o que fica e o que vai,
O que importa e o que já morreu.
Mas quem alimenta o sentimento da relíquia
De tudo acha que precisa,
Um recorte de jornal, algo que escreveu.
Tudo acha ser grande e glorioso.
E sonha ser um dia 
Um vulto importante,
E tudo aquilo será o tesouro
Do historiador que te busca
Para te depositar na estante,
Como obra de artista.
Mas por enquanto, apenas poeira,
Apenas fuligem.
Tudo adormece na sua insignificância,
Na caixa do quarto da bagunça que eu não irei organizar.

Jane Santos 

sábado, 15 de setembro de 2012

O velho




Deixo que a idade me venha

E me conceda, oh Deus
A glória de viver.
Muitos amaldiçoam o tempo
E as rugas que faz crescer.
Mas eu, eu não,
Sou grato e um tanto apaixonado
Pelas curvas que a vida faz.
Suspenso no espaço dos anos
Fica o nome e muito mais,
Ficam as experiências,
Dores e alegrias,
Risos e melancolias,
Ficam os livros escritos,
Ficam os amores.
Nada mais belo que ter histórias
Que roubar do passado
O direito de se mostrar aos outros,
Mostrar os outros.
De pintar um retrato
Com as palavras,
Cheio de faceirice até.
Envelhecer é saber das coisas,
É guardar as pessoas,
É ser importante.
Porque a gente guarda coisas,
Guarda gostos,
Guarda os instantes.

Deixo que a idade me venha,
Cabelos brancos que seja,
Mais importa esse poder guardado
Por detrás da fragilidade
Dos óculos e das lágrimas de saudade.
E se a morte me vier junto,
Pouco importa que isso ocorra,
Porque quem faz ao mundo,
É lícito que nunca morra.
É lícito que se eternize
Nos livros de História,
Nos contos da Literatura.
Quem envelhece o mais que pode
É sortudo, cheio de glória,
Porque mais vivo se faz,
Porque mais desentendidos desfaz
Mais justiça distribui
E do egoísmo se desnuda.


Jane Santos

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O colo



Diante da tua beleza
Eu me extasio,
Eu entro em torpor
E me perco já
Entre as lágrimas
Muito doces de te amar,
Entre os soluços
Muito leves.
Porque tu és o sol,
A água límpida da corredeira,
És a minha videira
Repleta de bênçãos
E canções de ninar.
Já não há dor,
Pois ela se esvai inteira
Quando vejo
O teu serzinho
Todo acolhidinho
No meu colo farto e bom.
Já não há medo,
Os monstros da madrugada se foram,
Ficaram as flores do nosso amor
A perfumar
Os pormenores de nós.

Jane Santos

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Fera doce e perigosa



Olhe bem o mundo,
Ele é o muro maior que conheceste,
Não concebeste antes coisa tão enorme e poderosa,
Na matéria é o que nos põe temor.
Olhe bem o mundo e perceba sua alma,
É o montante de gente
Que não se acalma
E perturba a noite.
É um chão que se acaba no magma,
É uma das grandes mágicas de Deus.
Olhe quão impressionante é seu semblante,
Quão grande é sua silhueta,
Feita de morrinhos e cordilheiras,
Imponente e gigante.
Olhe bem os mares, olhe bem os montes,
Esses ares todos da atmosfera,
É quase tudo isso uma fera adormecida,
Mas não se engane,
Ela é demasiado doce e perigosa,
Um felino em terra, fogo, ar e água
A desabar por todos os lados,
Sustentada pela gravidade.
Mas a gravidade maior, meu filho,
São os pés e as almas que percorrem esses vales,
São os anjos e demônios que degladiam entre si
Por um lugar ao sol,
Esse imenso outro mundo que nos ilunina,
Permitindo o nascer de cada dia,
A beleza e o esplendor de espanto
Que é próprio da criação divina.
Vá, enfrente essa fera,
E como arma de guerra use o amor.
Não te desnudes dele
E nunca finjas não tê-lo.
É contendo amor que vencerás o medo
De habitar o planeta Terra.

Jane Santos

O ser



Se me perguntam a razão,
Digo apenas o silêncio que me compõe.
Por trás dessa pele
Nada mais que silêncio,
Nada mais que irrespostas prontas e isoladas
Do contexto.
Minhas linhas de expressão de fato são reais,
Acumulam-se dia após dia,
Experiência uma e outra
Que se desencadeiam indefinidamente
Até quando meu corpo permitir.
Mas não creia essa calma toda ser a consolação,
Ela é mais uma forma de suportar as dores
Que carrego.
Dores só minhas,
Assim como as suas,
Que só você compreende e permite a entrada.
Essa calma,
Essa água sem ondas e sem peixes,
É mais um caminho covarde
Que meu espírito imperfeito faz valer.
Sem distinguir o bastante
O que é bom, o que não é.
Remoendo as perdas, por dentro,
Construindo sonhos nada monumentais
E deixando a água correr,
Porque neste mundo,
Mesmo com todas as cartomantes
E os signos do zodíaco,
Não dá para ter certeza do futuro,
A não ser quando este chega a cada minuto,
A cada surto psicótico
Muito comum a mim
No início de cada dia.

Jane Santos

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Álvaro


Dentre todos os sonhos, meu bem,
Você é o maior e mais claro,
Feito raio de sol persistente no início da manhã,
Penetrando a janela falível.
Dentre todas as realizações, meu bem,
Você é a que faz meu riso mais doce,
Menos preocupado com as coisas da vida,
E ainda que eu tenha de deixar o mundo,
Deixar os usos comuns,
Direi sempre que nada é tão grande,
Tão importante,
Tão meu quanto você.
A medida do meu amor é falha,
Porque não há, ainda que haja batalha,
Forma de denominar, enquadrar esse amor imenso.
É feito perfume de incenso,
Surge pequenino e imperceptível
E vai crescendo,
Tomando de conta de toda a alma,
De toda a sala,
De toda a nossa vivência tão mesquinha.
Mas você vem fazer tudo grande,
Transformar nosso sopro
Em obra faraônica,
Deixar nossos desgostos serem insignificância
Frente a você
Que é o amor brotando de mim.

Jane Santos

sábado, 10 de março de 2012

Razões


Ando buscando razões mais claras
Para fazer-te canção,
Que possa deslizar teu corpo,
Escorrer em tuas mãos,
Fazer caminho perpétuo em direção
Aos olhos abertos,
Espertos,
Teus olhos para os meus.
Busco a ajuda de anjos
Que voam na imaginação,
Faço-me por vezes criança,
Infância sem medo do escuro,
Com desejo do mundo
Que possas me construir.
Bem ali,
Debaixo daquele sonho,
Verde, lindo e risonho,
Eterno feito o amor que te dou.
Sou de fato um pobre homem
Tentando matar a fome
Que me rói o ser inteiro,
Pesadelo é que se instala,
Na sala da minha casa
Por não ter o perfume fino
Que invade os meus sentidos,
Ao sair de ti para o ar.
Só quero te respirar,
E pra isso procuro razões
Mais fortes que minha infantilidade,
Mais convincentes que minha necessidade,
Mais firmes pra sustentar a dor.

Jane Santos

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Pouca poesia e muito sentimento


Eles surgem vorazes,
Estremecidos entre dúvidas e certezas
Que se conversam dentro do ser.
São o cavalo de Troia sem pernas,
Sem soldados sequer.
São eles os sentimentos impuros que
Entremeiam a vida que tenta a pureza.
Mas não vale apenas sentir no mundo hoje,
O que pesa é o fato concreto,
Apesar de estar exposto ao intangível
Das redes sociais.
Os sentimentos explodem como as informações
De todos os meios impossíveis de ser,
E borbulham da pele,
Criando endemias incuráveis,
Como o amor.
Esse amor às vezes frívolo,
Ciumento e quase chulo,
Que faz raiva e seus pulos
Através das horas de cada um.

São eles, ladrões do ser,
Que nos acometem a atitudes questionáveis,
Dignas de arrependimento,
Mas que sem eles,
Também não há graça
Dentro da quase toda desgraça
Que é estar no mundo.

Jane Santos