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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Silêncio

O silêncio costuma me trazer idéias,
Leva as minhas para longe,
Na sua freqüência imperceptível.
E disseram um dia que era bom,
Que acalmava os ânimos,
Aquietava desânimos
Num canto qualquer do ser.
O silêncio é mestre de tantas coisas,
Flores que desabrocham
Sem alguém ver.
Ele aompanha o passar das noites
Por entre as moitas fechadas
Do sertão.
O silêncio é a música dos sábios,
Sem ensaio, sem algum tocador.
Apenas uma mente,
Uma calmaria no aconchego da sala,
Daí as idéias deságuam,
Lívidas, com a certeza da certeza.

O silêncio costuma me trazer novidades,
Às vezes uma frase,
Às vezes tristezas
À falta de uma pena.

Jane Santos

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Desarranjado



O samba toca tranquilo lá ao fundo,
Sou incerteza na tua pele,
E que faço!
Diriam os outros que nós outros
Erramos a linha,
E bordamos um pano desalinhado.
Diriam todos que o samba entristece,
Se ele, por ventura,
Seja um samba calado.
E na calada da noite que se vai,
A mente borbulha
E se aventura ao mundo todo,
Sem mapas, sem nada mais.
Deixo você no seu dormir quase acordado,
E vou tocar outros sambas com outras vestes,
Melodias e cavacos.
Por mais que eu tente,
O descontente desse ser
Irá correr sem freios alguns, sem porquê.
Meu bem, perdoe,
E não se doa com meu calar,
É que você me esqueceu no canto da sala,
E foi pro carnaval sem me convidar,
Por isso meu samba,
Dizem os outros toda vida,
Que desarranjou e ficou sem melodia,
E todavia encontro outros póros,
Viagem astral,
Outros povos.
Não se icomode, vou voltar...
Mas toque a mim, sempre,
Sem desanranjar.

Jane Santos

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Espiritismo

Se queres aprender a amar,
Entrega-te a Jesus,
Este dos precipícios te salvará,
Este te dará toda a luz,
Aquela que é necessária
Para aclarar teus dias de dúvida,
E que diminuirá a tua carga,
E que amaneirará a tua cruz.

Não te demores a crer,
A vida te espera,
Quer tua ação afetiva,
Uma mão mais amiga
E virtudes sem regras.

O amor está para dar,
No teu peito já se plantou,
Cultiva, então, homem de pouca fé,
E verás que além do céu azul
Há a paz eterna,
Finda-se a dor.

Inda que queiras todas as respostas,
Inda que não te contentes com as possíveis,
Crê e vem sem demora
Para a doutrina pura do Cristo.
Não te atormentes com o medo,
Não dê aos maledicentes ouvidos,
Aproxima-te do amor e do conhecimento
E estarás, assim, evoluindo.

A vida aqui te brilha,
Ainda meio ofuscada,
Mas venhas tu a esta doutrina,
E verás a luz sem talhas.
Terás a visão da verdade,
Então sairás falando, levando o amor,
A paz e a caridade.

Jane Santos

Alvorada

Sondo as coisas do mundo
Através desses óculos respingados.
Quebrando as desilusões da vista
Consigo tatear alguma coisa.

Furacões se formam,
Chuvas caem sem dó nem piedade,
Assim se vão metades de cidades,
Encharcando o peito de pesar.

E apesar de tudo,
Esse mundo se mostra ainda habitável,
Desejável e infalível.
Mesmo que meu ser pequeno
Ainda sinta medo.

O escuro das noites sem luz,
A solidão dos dias sem coisas e pessoas,
A visão embaçada das correntes,
Tudo isso me congela à televisão.

Um tempo vem chegando,
E meus óculos estarão quebrados,
Transformados em um fóssil qualquer.
E prometem-me com tenacidade
A chegada de uma nova era,
E quem me dera puder ver.

É por isso que eu poetiso,
Na tentativa inocente de ficar no tempo,
Resistindo ao temporal das mudanças frequentes.

Jane Santos

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

De que adianta sem ela


Lá fora a chuva cai sem alvoroços,
Aqui dentro o pensamento se inquieta.
Não mantenho a porta aberta,
Janelas eu as fecho todas.
Quem sabe espíritos loucos queiram abrigo aqui comigo.
Enfim,
Afirmo mesmo que a sorte anda devagar,
Possível até de um raio me cair,
Homem desajeitado e sem mulher...
Era de se esperar que desse nisso.
Os pratos ainda estão por lavar,
A cama, ainda por arrumar,
A casa mais parece um ninho sujo,
E meu corpo... deste ao menos cuido.
Mas cofesso que me falta outro,
Cheiroso, quente e livre,
Que me venha amar sem limites,
Que me devolva o conhecimento da vida.
Morrerei se ela não voltar,
Minha escrita até desconexa fica,
Acho que preciso dormir.
Sonharei com seu sorriso angélico,
Com suas mãos nervosas em mim.
E quem sabe eu acorde melhor,
Criando coragem para limpar a casa toda,
Mas se ela não voltar, de que adianta!
Tudo será sonho apenas.
A água entra pelas frechas...
Deixa estar, deixa estar...
Vou deitar e pronto.
Quem sabe aqui se inunde e me leve para o além,
Porque sem meu bem,
De que adianta cansar!

Jane Santos

domingo, 5 de dezembro de 2010

Temo o dia do infortúnio


Temo não poder mais lhe escrever versos nus,

Temo haver de me cobrir toda de panos crus.
Temo não beijar mais os dedos ásperos de suas mãos,
Temo também não ter chão para cair
Quando cair a tempestade.
Vou cultivar flores para elas me entreterem,
Vou pixar meus muros sem palavras de desespero,
Mas realmente temo o dia
Em que não mais te verei aqui.

E então, meu bem,
Vou sair mundo afora gritando absurdos,
Vou dizer que meu mundo foi queimado,
Estrangulado a sangue frio.
Pois tiraram-me o que respiro,
O que me renova as energias todo dia.

Louca, feito um redemoinho,
Irei arrasar vilarejos inteiros com meus gritos,
Pedindo sem parar a tua volta,
o teu corpo, a tua alma
e o tempero indispensável da minha vida.

Não negarei meus distúrbios, não negarei minha ira,
Mas me recusarei ao tratamento desse amor,
Que é vício, delírio e dor.
Me recuso a te esquecer,
A te apagar do meu livro de receitas,
Me recusa a ser outra pessoa.

Temo o dia desse infortúnio...
Prefiro a poesia calma da menina amada
nas tardes quentes e ventiladas pelas hélices do arno.

Jane Santos

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dia Puxado


Dê-me o ar de sua graça
Neste dia tão puxado que foi o meu.
Um trabalho apertado, um cinto apertado e o aperto das contas.
Venha que lhe faço uma macarronada,
Mesmo às pressas e sem queijo.
Venha que lhe guardo um beijo para o fim da noite.
Venha tirar meus pensamentos pesados,
Minhas energias pra baixo,
E cortar minhas correntes neste dia tão duro.
Pois o mundo olhou pra mim,
Julgou meus óculos, meu sapato, minha caneta,
E eu mandei todo mundo se ferrar,
Com a minha voz baixa do íntimo.
E por medo ou sei lá o quê acatei os insultos,
E tirei os óculos, o sapato e escrevi a lapis.
Por causa disso eu imploro sua presença,
Tão morna, tão crua e tão bela.
Pra me exorcisar e tirar essas mandingas,
Esses olhares de mentira e balela.
Venha, arranque meu próprio corpo de mim mesmo,
Ponha-me para dormir ao som do seu suspiro,
Não me deixe nesse fim de noite,
Coma comigo o macarrão escorrido.
Venha, faça música comigo e diga
Em voz alta que meus óculos, meu sapato e minha caneta
São charmosos apesar de tudo.

Jane

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A sentença


Mantenho-me aqui intacta,

Com o pensamento envenado de você.
Se é ódio certamente não sei,
Se é amor também.
É aquela coisa sem termos que se cria no coração,
Uma sentença cabal de que não mais vivo sem mim mesma,
Você.
E imaginei muitos verbos e situações para os conjugar,
Mas me dei conta de que essa prisão
Não me deixa pensar,
Pois o pensamento agora é dirigido por esse amor sem regras.
Esse amor de casamento, que enche o saco e volta com toda a fúria,
Esse amor de criança, que se vive ludicamente e não se conhece.
E a tal da conjugação que eu iria fazer ficou retida
Nesse cérebro caraminholado,
Envenedado e sem antídoto.
E se eu pudesse, podes crer,
Arrancaria pelas víceras essa coisa que me faz viver e morrer,
Esse tal de amor.
Esse tal substantivo abstrato
E tão concreto em meu ser.

Jane Santos

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Certas coisas



Há tanto tempo não poetiso certas coisas,
Como a fúria de certas situações.
Vivo-as intensamente,
Mas esqueço ou tenho medo de as cantar.
Ficam ali, abandonadas na minha existência,
Ficam ali, renegadas ao poema.

Coisas como essas me deixam vermelha.
Coisas como essas precisam de preparo.
E quando mais jovem elas vinham sem aviso,
Me arrebatavam à poesia louca.
E sem freios eu corria o papel, sentindo o fogo da descoberta.

Quando descobri enfim tudo aquilo,
Aquelas coisas esfriaram nos meus dedos,
Ficaram retidas à mente perplexa
Nas noites curtas.

Coisas como essas agora são difíceis,
E eu as camuflo com palavras tão boas
Que até a vergonha entra na história.
Mas para não deixar de poetisar vez por outra,
Inventei de contar essas coisas...

Jane Santos

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Amor sem conceito

Se me perguntas o que sei do amor,
Digo que nem sei...
Do amor não se sabe nada, meu bem.
Do amor se vive e se saboreia.
É a fruta doce de uma árvore invernosa.
Do amor se tira o sumo,
Meio bruto até.
E falo do amor de homem e mulher...

E que direi mais ainda,
É que o amor dá vida,
Ele se duvida de vez quando,
Quando as flores ficam ressequidas.
E basta apenas uma lágrima e um beijo
E todas elas se revivem.

Mas o amor não tem dicionário,
Nem mesmo ele está lá.
Não tem definição.
Ouse dizer que tem e terá que me explicar.
Você não tem coragem...

Vivo pensando num conceito de amor
Para publicar inteiro num poema,
Mas que nada,
Mas que história...
O amor só faz hora com a minha cara,
Se demora no peito frouxo
E nem diz o que ele é.
Perda de tempo essa minha,
Essa minha de querer ser o expert linguístico do amor.

Chico Buarque canta bem o amor,
Carlos Drummond verbaliza bem o amor,
Mas eu...
Quem sou eu para desafiá-los.

Sei apenas falar-te que eu amo,
Amo tanto e tantas coisas.
E daí já saí do amor de homem e mulher.

Amo tanto, é tanto amor.
Acho que vou colocar uma banca na feira
Distribuindo amor.

E talvez falando com as pessoas eu possa descobrir o que é isso,
Esse bicho sem dó que nos prende,
Nos entrega sem carta de apresentação.

Pronto, o amor pode ser isso,
Tudo de um pouco e pouco de tudo.
Aquilo que a gente junta de tempo em tempo,
De pessoa em pessoa,
De música em música,
De vida em vida, quem sabe.

Enfim, eu não sei o que é o amor.

Jane Santos