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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Sorte de quem ama

Sorte tem quem tem um amor,
Que possa dizer esse amor,
Ouvir esse amor.
Se apaixonar uma e tantas vezes sejam necessárias,
Para não morrer.
E de amar viver...
Pois que se precisa trabalhar para pagar as contas
E comprar o melhor sapato
E os gastar andando com esse amor ao lado.
Pois que se precisa comprar comida no mercado
Pra fazer no domingo, de amor ao lado.
Macarronada, feijão preto e bife acebolado.
Pois que é necessário ganhar salário
Para pagar o aluguel de um telhado,
Pra debaixo dele construir sonhos,
Pra debaixo dele deixar histórias.
Enfeitar a sala,
Comprar tigelas, potes, panelas para a cozinha.

Sorte tem quem tem um amor.
Que possa à tarde de qualquer dia feriado
Deitar no colo e brincar com seus cabelos,
Dissolver beijos em sua face
E ainda que mais calado que o silêncio,
Gritar ao universo um eu te amo,
Um eu te quero,
Um ai amor.
E até brigar é bom quando se tem um amor,
Pois que a volta é gloriosa,
Reafirma o amor de antes, de tantas horas.
É...  sorte tem quem tem um amor
Para dele cansar
E depois sentir saudade,
Correr aos braços dele e nada mais dizer
E dissolver beijos,
E estreitar os lábios.

Jane Santos


A gente não quer muita coisa

A gente não quer muita coisa,
Muita coisa nem cabe nos bolsos,
Entupeta sacolas, faz bagagem...
E nessa altura nem quero carregar nada.
Nada que pese, nada que doa.
Se for pra carregar,
Que seja alegria.
Se for pra arrastar,
Que sejam chinelos.
Nessa altura do ano... nem planos,
Apenas sonhos.
Pois é,
Ando querendo dar vazão a algumas coisas,
Risos, por exemplo.
Livros, por exemplo... poemas.

A gente não quer muita coisa,
Nesse espaço de tempo, apenas tempo
Pra curtir as miudezas da vida,
Amar sem barreiras,
Falar besteiras,
Voar... voar de paraquedas,
Fingir que não tem medo,
Que não é cedo
Pra se jogar.

Jane Santos

Estado

Como um rio
Eu escorregaria devagar por entre tuas pedras,
Moldando todas elas
A meu bel prazer.
E prazer eu sentiria de doer,
De marcar de dentes
À noite e alvorecer.
Por entre meus afluentes
Me deixaria escorrer,
Acabando por desembocar
Em fluxos nunca dantes experimentados,
Em dedos nunca dantes dedilhados,
E de boca desembocaria em teu berço,
Como um rio, a correr.

Como um rio, a correr,
Eu esqueceria o mundo e as vertigens.
Esqueceria as virgens, os mentirosos,
As mesquinharias e os insólitos.
Deixaria tudo para traz, como sedimento,
E só sentimento deixaria povoar-me,
Só os sons do corpo,
Só os sopros,
Só a carne.

Dama

Eu sou o que?
Eu sou o que dá pra ser,
E é às vezes de morrer de rir.
Por vezes tem erros,
Mas também acertos,
Consertos meio tortos,
Mas vamos lá! É preciso.
Reciclar, ler livros,
Passar a vista na janela,
Ver o céu que se fecha
Ou que lindo azul-claro
Posa pra fotografia.

Eu sou o que?
Eu sou o que quero ser.
Menina mimada,
Mulher indomada,
Frágil, impositiva.
Sou o que o tempo dá,
O que as pessoas esperam também.
Por mal ou por bem,
Eu vou sendo espinho e flor,
Pecado e pudor,
Vou sendo assim assado,
Meio enrolado nos planos de futuro.
Nos planos de fundo...

Eu sou o que?
Eu sou o mundo,
Aquele que me rodeia,
Muitas vezes me odeia,
Quer cortar minhas raízes,
Minhas asas,
Tirar os risos felizes,
Gargalhadas e engasgos de piadas.
Malfadadas tentativas,
Pois que eu sou o que me vem no destino,
E cair não está no contrato dessa vida.

E sou o pino do sol a arder,
Eu sou a água a ferver,
Eu sou eu e você, como queira.
Eu sou?
Eu sou a virgem e puritana,
Mas também a camélia, a dama,
Mas também o que der na telha,
Nem que me neguem, nem que desamem.
Eu sou?
Eu sou o fiasco e a glória,
A maldade e a concórdia.
Sou o que me servir no momento,
E chorar de arrependimento... pode até ser.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Ainda que egoísta, amor.



 

Não me perca por motivos tão tolos!
Há motivos maiores que pode inventar,
Mas... por favor, não invente.
Não me perca assim por nenhum motivo.
Precisas de mim,
Da companhia na cama,
Dizer que me ama,
Ver-me acordar dias e dias.
Trocar palavras pequenas na correria da semana,
Precisas para viver dores e alegrias.
Você precisa da minha sombra,
Da minha voz ao ouvido.
Imagine se te falto uma vez
E quanta dor sentirá?
Não pode me deixar,
Não pode seguir em frente,
Não há frente, horizonte,
Somente nós dois,
Nossos dissabores por vezes,
Nossos problemas,
Nossa falta de dinheiro,
Nossos erros,
Nossos pecados.
Você sem mim é menos,
Eu com você sou mais,
Mais uma mulher feliz,
Enfrentando as tempestades, os medos,
Inventando coragem.
Ah!Se eu fosse você, perdoaria agora,
Inventaria motivos pra me beijar.
Ah! Se eu fosse você já não esperava,
Já não faria o tempo maltratar,
Pois você sem mim,
Eu sem você
Não há.

Jane Santos

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Graça



Faça-me a graça

De nunca sumir do meu caminho
De ser a estrada do infinito
 De ser enfim, meu bem,
A vida minha.
Faça-me a graça de acompanhar meu acordar,
Meu tomar café
Meu trabalhar


Meu chegar


Meu adormecer no colo teu.


Encha-me da tua luz


Energia positiva


Que se expande


Em tempo todo


E todo lugar.


Esse carinho eu quero


Dessas mãos que massageiam panelas


Copos de vidro e plástico,


Massageiam o meu ego


Livros


Pernas


O meu corpo deitado,


Massageiam e passageim


Sobre mim e minha alma.


Não quero nunca perder essa sorte


Essa graça de ser ao seu lado.


Quero o beijo


O abraço,


O suspiro,


O cansaço.


Dê-me enxerto de amor


E te darei rosas


Sabor


Palavras.


E te darei eu mesmo


Como presente de aniversário


Gracioso e bem embalado.


E te darei o mundo


As estrelas em fotografia,


O mar em revelia


Os vulcões na TV,


As histórias em quadrinhos.


E eu te darei carinho


Brigadeiro de copinho


Promessas diversas de felidade


E todo o espaço da cidade


Você irá ter.


A igreja


A praça


Os postes


As luzes.


As luzes...


E eu te darei as luzes


Que nunca se apaguem.


Jane Santos

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

João Cunha



Minha raiz fincou-se no chão
Desta terra dura,

Amargura corroendo o estômago,
Água impura,
Escorrendo no resto de gente
Que respira arquejando já,
No fim da tardezinha,
Uma rede estendida,
Uma lamparina pra alumiar.
O prato de comida
É a farinha, é a avoante tostada.
Ossinhos saborosos,
A óleo e sal,
Alimento só por só
Que me sustenta a andar.
A labuta é grande,
O sol é impertinente,
Resolve nunca amenizar,
A planta morre
Como morre o plantador,
Água não corre
Não sacode a terra no fundo do rio,
Tudo vazio,
Sem brilho e sem cor, 
Tudo coisa vã.
Dizem uns que se não tem livro,
Morre a alma,
Não tem mente sã.
Mas a letra não me entra,
Aqui nessas vistas embaçadas,
Nem as regras gostam de mim,
São por demais atrapalhadas.
A minha regra é a terra,
É a planta, o meu quintal.
Minha regra é minha fianga,
É o feijão, o milharal.
Não careço de tanta coisa,
Educação da mãe recebi.
Respeitar o semelhante,
Ir à missa,
Se benzer na encruzilhada,
Não insultar a besta fera,
Não contar estrelas,
No fim da noite rezar.
Pai nosso que estais no céu
E o céu era o sono
Que não dava pra adiar.
Aprendi com moça de família não bulir,
Mas pra isso não tive escola,
Escola foi o caminho,
Escola foi a luta.
Choro tanto esse destino,
Essa vida setaneja,
Ao desprezo das políticas,
À margem do desespero.
Será que sobrevivo,
Será que no meu chão morro?
Proque meu chão se desmorona,
Tá virando um alvoroço,
Vem a tal da mídia, vem a Globo,
Vem a cerveja, vem o cara morto.
E me dizem: atrasado!
Velho louco!
Como pode não ter TV,
Como pode nunca ter
Provado miojo?
E me dizem: abestado!
Velho broco!
Como pode achar que o mundo
Fica só no seu miolo?
Velho torto, desembestado,
Casado com essa enxada velha,
Faz só o que dá na telha,
Nem mulher arranja nunca.
Vive preso nessa espelunca,
Essa casa de chão batido,
Parede de barro socado,
Alisado, pintado com cal e só?
Como pode esse bocó
Não saber do mensalão?
E eu digo: posso e como posso!
Não saber dessa invasão.
Sou só, abandonado,
Pais mortos, irmãos viajados.
Sou só, não preciso mais,
Meu futuro não é o cais,
Meu futuro é a cova,
É esse chão que me coonhece, não desdenha,
Não esquece,
É esse barro debaixo da unha,
E dirão: olhem o Cunha,
Morreu sem saber nada,
Tedinho, tão bonzinho, fará falta!
E dirão: olhem o Cunha,
Se foi tão cedo,
Deixou só semente plantada.
Coitado. Ô coitado, era uma boa alma!
Se quem de criança não tem livros,
De livros não viverá,
Se não leio enquanto vivo,
Enquanto morto não me caberá.
E por isso se tiver filho,
Que difícil muito será,
Mandarei o cabra pra escola,
Pra à professora escutar.
Apesar de amar a enxada, a terra e a enxurrada,
Mais admiro o homem
Que sabe o universo estudar.
Meu universo sou eu mesmo,
Preso no meu medo
De aprender do começo,
Tão velho e sem paciência,
A coisa da ciência,
A coisa do indagar.
Sou o João,
O João Cunha ninguém,
Não quero ir além,
Quero aqui me enterrar.
E na minha tumba assim se escreva:
Aqui jaz a alma 
Que preferiu a semente como estudo,
A enxada como escudo,
À simplicidade como forma de se guiar.

Jane Santos