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domingo, 5 de janeiro de 2014

Filosofia do poeta

Minha pobre filosofia
Não ecoa nos livros
Como conceitos a se seguir.
Minha pobre filosofia
É somente poesia
Que explode peito afora,
A se deitar no papel,
A se deleitar sob o véu
Da lua grande.
Não,
Em verdade vos digo
Que a poesia que esperam não está aqui,
Não há receitas, nem provérbios exemplares,
Exemplos singulares,
Nem nada que glorifique.
É somente mesmo,
E acredite,
Uma forma de expulsar os demônios,
Os resquícios de uma dor,
As manchas de uma queda.
Essa filosofia pobre e sem ritmo
Não é nada, meus amigos,
É só um pouco do poeta.

Jane Santos

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O dia de Margarida

Margarida acorda cedo
Tanto quanto o gato que lhe acompanha
Roçando em suas pernas
Com miaus
Por uma comida sem graça.
E ela em paciência sei lá como
Diz espera, Bonito
Já vou, Bonito
E Bonito miau.
Sabia nada Margarida que o dia
Era pequeno demais
Pra tanta paciência.
Mas ela ia
Pouco a pouco se emaranhando na cozinha
Preparando o de comer só dela
Porque a solidão era grande
E pela janela só passava vento,
Vento que o Bonito também via
Mas nem ligava
Porque na bacia tinha comida
Sem, graça sim,
Mas matava a fome.
Ah! Se Margarida soubesse
Que em sua casa pequena e agoniada
Ainda cabia amor
Ela sairia da cozinha e iria ao espelho,
Viria o desespero dos cabelos tão belos
Mas dormidos ainda.
Viria o contorno triste
Que o silêncio dá
À face.
Se Margarida soubesse que outras bocas sentem fome
De sua comida
Sairia à feira mais bonita,
Mais caprichosa
E trocaria intenções.
Ah! Mas Margarida passa o dia e nem se nota
Que a porta continua fechada
E ninguém, mas ninguém
Diz oi de casa,
Nem assovia à janela,
Nem assusta o Bonito.
Ah! Pobre Margarida solitária e feia,
Envelhece e morre
Frente à novela,
Onde os amores ocorrem,
Onde os beijos a entretêm.
Mentira.
Mentira, Margarida!

Jane Santos

Carta de quem quer que seja

Agora que tudo cala nesse dia
É interessante que eu me cale cá dentro
Com os meus fogos
E arroubos
Inapagáveis.
E deixo que se exumem
Os barulhos das bocas e dos pés,
Permitindo ser
Forçoso me cale um instante só
Para revelar,
Um instante só,
O ser que não sabem ainda.
E por não saberem-me de verdade,
Deixo que falem
O que eu poderia passar a ser.
E para isso
É de importância suma
Que se consumam uns livros tais,
Que se derramem na mesa tosca
E conceitos sejam escritos,
E sejam revistos jornais,
Papéis perdidos,
Palavras soltas.
Deixo minha alma esvaziar-se
E ser preenchida
Pouco a pouco por aqueles
Que querem me trazer à vida.
Ledo engano
Quando evocam a toda hora.
Nem eu mesmo soube o que era
E que o poderia passar a ser
E o que morri.
Eu era um aqui e outro ali,
Ontem e agora.
Eu nunca fui o mesmo
Se cresci.
Eu mudei e isso cobra
Muito tempo para uma ciência
Que não acompanha meu passo
E meu penso.

Jane Santos

Linhas de expressão

Testas enrugadas passeiam
Na calçada e se reconhecem
Por suas tristezas
E dúvidas.
Por anos elas vinham
Se alinhando nas expressões
Do dia de trabalho corrido,
Da noite mal dormida,
Do abraço não trocado,
Da perda ou do ceder forçado.
Por quantas vezes essas testas
Tiveram chance de serem lisas e infantis,
Mas os impulsos muito humanos
Barraram sorrisos
E criaram inundações de mágoa.
Magoou-se o rapaz com o
Colega em quem confiava,
A menininha que teve má reputação publicada,
A mulher que descobriu ser segunda,
A bela que perdeu a pompa.
E assim é possível
Determinar cada ruga,
As justas ou injustas,
Que se foram achando donas da pele
E que colágeno nenhum
Pode remediar no todo.

Jane Santos

Sorte de quem ama

Sorte tem quem tem um amor,
Que possa dizer esse amor,
Ouvir esse amor.
Se apaixonar uma e tantas vezes sejam necessárias,
Para não morrer.
E de amar viver...
Pois que se precisa trabalhar para pagar as contas
E comprar o melhor sapato
E os gastar andando com esse amor ao lado.
Pois que se precisa comprar comida no mercado
Pra fazer no domingo, de amor ao lado.
Macarronada, feijão preto e bife acebolado.
Pois que é necessário ganhar salário
Para pagar o aluguel de um telhado,
Pra debaixo dele construir sonhos,
Pra debaixo dele deixar histórias.
Enfeitar a sala,
Comprar tigelas, potes, panelas para a cozinha.

Sorte tem quem tem um amor.
Que possa à tarde de qualquer dia feriado
Deitar no colo e brincar com seus cabelos,
Dissolver beijos em sua face
E ainda que mais calado que o silêncio,
Gritar ao universo um eu te amo,
Um eu te quero,
Um ai amor.
E até brigar é bom quando se tem um amor,
Pois que a volta é gloriosa,
Reafirma o amor de antes, de tantas horas.
É...  sorte tem quem tem um amor
Para dele cansar
E depois sentir saudade,
Correr aos braços dele e nada mais dizer
E dissolver beijos,
E estreitar os lábios.

Jane Santos


A gente não quer muita coisa

A gente não quer muita coisa,
Muita coisa nem cabe nos bolsos,
Entupeta sacolas, faz bagagem...
E nessa altura nem quero carregar nada.
Nada que pese, nada que doa.
Se for pra carregar,
Que seja alegria.
Se for pra arrastar,
Que sejam chinelos.
Nessa altura do ano... nem planos,
Apenas sonhos.
Pois é,
Ando querendo dar vazão a algumas coisas,
Risos, por exemplo.
Livros, por exemplo... poemas.

A gente não quer muita coisa,
Nesse espaço de tempo, apenas tempo
Pra curtir as miudezas da vida,
Amar sem barreiras,
Falar besteiras,
Voar... voar de paraquedas,
Fingir que não tem medo,
Que não é cedo
Pra se jogar.

Jane Santos

Estado

Como um rio
Eu escorregaria devagar por entre tuas pedras,
Moldando todas elas
A meu bel prazer.
E prazer eu sentiria de doer,
De marcar de dentes
À noite e alvorecer.
Por entre meus afluentes
Me deixaria escorrer,
Acabando por desembocar
Em fluxos nunca dantes experimentados,
Em dedos nunca dantes dedilhados,
E de boca desembocaria em teu berço,
Como um rio, a correr.

Como um rio, a correr,
Eu esqueceria o mundo e as vertigens.
Esqueceria as virgens, os mentirosos,
As mesquinharias e os insólitos.
Deixaria tudo para traz, como sedimento,
E só sentimento deixaria povoar-me,
Só os sons do corpo,
Só os sopros,
Só a carne.

Dama

Eu sou o que?
Eu sou o que dá pra ser,
E é às vezes de morrer de rir.
Por vezes tem erros,
Mas também acertos,
Consertos meio tortos,
Mas vamos lá! É preciso.
Reciclar, ler livros,
Passar a vista na janela,
Ver o céu que se fecha
Ou que lindo azul-claro
Posa pra fotografia.

Eu sou o que?
Eu sou o que quero ser.
Menina mimada,
Mulher indomada,
Frágil, impositiva.
Sou o que o tempo dá,
O que as pessoas esperam também.
Por mal ou por bem,
Eu vou sendo espinho e flor,
Pecado e pudor,
Vou sendo assim assado,
Meio enrolado nos planos de futuro.
Nos planos de fundo...

Eu sou o que?
Eu sou o mundo,
Aquele que me rodeia,
Muitas vezes me odeia,
Quer cortar minhas raízes,
Minhas asas,
Tirar os risos felizes,
Gargalhadas e engasgos de piadas.
Malfadadas tentativas,
Pois que eu sou o que me vem no destino,
E cair não está no contrato dessa vida.

E sou o pino do sol a arder,
Eu sou a água a ferver,
Eu sou eu e você, como queira.
Eu sou?
Eu sou a virgem e puritana,
Mas também a camélia, a dama,
Mas também o que der na telha,
Nem que me neguem, nem que desamem.
Eu sou?
Eu sou o fiasco e a glória,
A maldade e a concórdia.
Sou o que me servir no momento,
E chorar de arrependimento... pode até ser.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Ainda que egoísta, amor.



 

Não me perca por motivos tão tolos!
Há motivos maiores que pode inventar,
Mas... por favor, não invente.
Não me perca assim por nenhum motivo.
Precisas de mim,
Da companhia na cama,
Dizer que me ama,
Ver-me acordar dias e dias.
Trocar palavras pequenas na correria da semana,
Precisas para viver dores e alegrias.
Você precisa da minha sombra,
Da minha voz ao ouvido.
Imagine se te falto uma vez
E quanta dor sentirá?
Não pode me deixar,
Não pode seguir em frente,
Não há frente, horizonte,
Somente nós dois,
Nossos dissabores por vezes,
Nossos problemas,
Nossa falta de dinheiro,
Nossos erros,
Nossos pecados.
Você sem mim é menos,
Eu com você sou mais,
Mais uma mulher feliz,
Enfrentando as tempestades, os medos,
Inventando coragem.
Ah!Se eu fosse você, perdoaria agora,
Inventaria motivos pra me beijar.
Ah! Se eu fosse você já não esperava,
Já não faria o tempo maltratar,
Pois você sem mim,
Eu sem você
Não há.

Jane Santos

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Graça



Faça-me a graça

De nunca sumir do meu caminho
De ser a estrada do infinito
 De ser enfim, meu bem,
A vida minha.
Faça-me a graça de acompanhar meu acordar,
Meu tomar café
Meu trabalhar


Meu chegar


Meu adormecer no colo teu.


Encha-me da tua luz


Energia positiva


Que se expande


Em tempo todo


E todo lugar.


Esse carinho eu quero


Dessas mãos que massageiam panelas


Copos de vidro e plástico,


Massageiam o meu ego


Livros


Pernas


O meu corpo deitado,


Massageiam e passageim


Sobre mim e minha alma.


Não quero nunca perder essa sorte


Essa graça de ser ao seu lado.


Quero o beijo


O abraço,


O suspiro,


O cansaço.


Dê-me enxerto de amor


E te darei rosas


Sabor


Palavras.


E te darei eu mesmo


Como presente de aniversário


Gracioso e bem embalado.


E te darei o mundo


As estrelas em fotografia,


O mar em revelia


Os vulcões na TV,


As histórias em quadrinhos.


E eu te darei carinho


Brigadeiro de copinho


Promessas diversas de felidade


E todo o espaço da cidade


Você irá ter.


A igreja


A praça


Os postes


As luzes.


As luzes...


E eu te darei as luzes


Que nunca se apaguem.


Jane Santos