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sábado, 15 de setembro de 2012

O velho




Deixo que a idade me venha

E me conceda, oh Deus
A glória de viver.
Muitos amaldiçoam o tempo
E as rugas que faz crescer.
Mas eu, eu não,
Sou grato e um tanto apaixonado
Pelas curvas que a vida faz.
Suspenso no espaço dos anos
Fica o nome e muito mais,
Ficam as experiências,
Dores e alegrias,
Risos e melancolias,
Ficam os livros escritos,
Ficam os amores.
Nada mais belo que ter histórias
Que roubar do passado
O direito de se mostrar aos outros,
Mostrar os outros.
De pintar um retrato
Com as palavras,
Cheio de faceirice até.
Envelhecer é saber das coisas,
É guardar as pessoas,
É ser importante.
Porque a gente guarda coisas,
Guarda gostos,
Guarda os instantes.

Deixo que a idade me venha,
Cabelos brancos que seja,
Mais importa esse poder guardado
Por detrás da fragilidade
Dos óculos e das lágrimas de saudade.
E se a morte me vier junto,
Pouco importa que isso ocorra,
Porque quem faz ao mundo,
É lícito que nunca morra.
É lícito que se eternize
Nos livros de História,
Nos contos da Literatura.
Quem envelhece o mais que pode
É sortudo, cheio de glória,
Porque mais vivo se faz,
Porque mais desentendidos desfaz
Mais justiça distribui
E do egoísmo se desnuda.


Jane Santos

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O colo



Diante da tua beleza
Eu me extasio,
Eu entro em torpor
E me perco já
Entre as lágrimas
Muito doces de te amar,
Entre os soluços
Muito leves.
Porque tu és o sol,
A água límpida da corredeira,
És a minha videira
Repleta de bênçãos
E canções de ninar.
Já não há dor,
Pois ela se esvai inteira
Quando vejo
O teu serzinho
Todo acolhidinho
No meu colo farto e bom.
Já não há medo,
Os monstros da madrugada se foram,
Ficaram as flores do nosso amor
A perfumar
Os pormenores de nós.

Jane Santos

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Fera doce e perigosa



Olhe bem o mundo,
Ele é o muro maior que conheceste,
Não concebeste antes coisa tão enorme e poderosa,
Na matéria é o que nos põe temor.
Olhe bem o mundo e perceba sua alma,
É o montante de gente
Que não se acalma
E perturba a noite.
É um chão que se acaba no magma,
É uma das grandes mágicas de Deus.
Olhe quão impressionante é seu semblante,
Quão grande é sua silhueta,
Feita de morrinhos e cordilheiras,
Imponente e gigante.
Olhe bem os mares, olhe bem os montes,
Esses ares todos da atmosfera,
É quase tudo isso uma fera adormecida,
Mas não se engane,
Ela é demasiado doce e perigosa,
Um felino em terra, fogo, ar e água
A desabar por todos os lados,
Sustentada pela gravidade.
Mas a gravidade maior, meu filho,
São os pés e as almas que percorrem esses vales,
São os anjos e demônios que degladiam entre si
Por um lugar ao sol,
Esse imenso outro mundo que nos ilunina,
Permitindo o nascer de cada dia,
A beleza e o esplendor de espanto
Que é próprio da criação divina.
Vá, enfrente essa fera,
E como arma de guerra use o amor.
Não te desnudes dele
E nunca finjas não tê-lo.
É contendo amor que vencerás o medo
De habitar o planeta Terra.

Jane Santos

O ser



Se me perguntam a razão,
Digo apenas o silêncio que me compõe.
Por trás dessa pele
Nada mais que silêncio,
Nada mais que irrespostas prontas e isoladas
Do contexto.
Minhas linhas de expressão de fato são reais,
Acumulam-se dia após dia,
Experiência uma e outra
Que se desencadeiam indefinidamente
Até quando meu corpo permitir.
Mas não creia essa calma toda ser a consolação,
Ela é mais uma forma de suportar as dores
Que carrego.
Dores só minhas,
Assim como as suas,
Que só você compreende e permite a entrada.
Essa calma,
Essa água sem ondas e sem peixes,
É mais um caminho covarde
Que meu espírito imperfeito faz valer.
Sem distinguir o bastante
O que é bom, o que não é.
Remoendo as perdas, por dentro,
Construindo sonhos nada monumentais
E deixando a água correr,
Porque neste mundo,
Mesmo com todas as cartomantes
E os signos do zodíaco,
Não dá para ter certeza do futuro,
A não ser quando este chega a cada minuto,
A cada surto psicótico
Muito comum a mim
No início de cada dia.

Jane Santos

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Álvaro


Dentre todos os sonhos, meu bem,
Você é o maior e mais claro,
Feito raio de sol persistente no início da manhã,
Penetrando a janela falível.
Dentre todas as realizações, meu bem,
Você é a que faz meu riso mais doce,
Menos preocupado com as coisas da vida,
E ainda que eu tenha de deixar o mundo,
Deixar os usos comuns,
Direi sempre que nada é tão grande,
Tão importante,
Tão meu quanto você.
A medida do meu amor é falha,
Porque não há, ainda que haja batalha,
Forma de denominar, enquadrar esse amor imenso.
É feito perfume de incenso,
Surge pequenino e imperceptível
E vai crescendo,
Tomando de conta de toda a alma,
De toda a sala,
De toda a nossa vivência tão mesquinha.
Mas você vem fazer tudo grande,
Transformar nosso sopro
Em obra faraônica,
Deixar nossos desgostos serem insignificância
Frente a você
Que é o amor brotando de mim.

Jane Santos

sábado, 10 de março de 2012

Razões


Ando buscando razões mais claras
Para fazer-te canção,
Que possa deslizar teu corpo,
Escorrer em tuas mãos,
Fazer caminho perpétuo em direção
Aos olhos abertos,
Espertos,
Teus olhos para os meus.
Busco a ajuda de anjos
Que voam na imaginação,
Faço-me por vezes criança,
Infância sem medo do escuro,
Com desejo do mundo
Que possas me construir.
Bem ali,
Debaixo daquele sonho,
Verde, lindo e risonho,
Eterno feito o amor que te dou.
Sou de fato um pobre homem
Tentando matar a fome
Que me rói o ser inteiro,
Pesadelo é que se instala,
Na sala da minha casa
Por não ter o perfume fino
Que invade os meus sentidos,
Ao sair de ti para o ar.
Só quero te respirar,
E pra isso procuro razões
Mais fortes que minha infantilidade,
Mais convincentes que minha necessidade,
Mais firmes pra sustentar a dor.

Jane Santos

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Pouca poesia e muito sentimento


Eles surgem vorazes,
Estremecidos entre dúvidas e certezas
Que se conversam dentro do ser.
São o cavalo de Troia sem pernas,
Sem soldados sequer.
São eles os sentimentos impuros que
Entremeiam a vida que tenta a pureza.
Mas não vale apenas sentir no mundo hoje,
O que pesa é o fato concreto,
Apesar de estar exposto ao intangível
Das redes sociais.
Os sentimentos explodem como as informações
De todos os meios impossíveis de ser,
E borbulham da pele,
Criando endemias incuráveis,
Como o amor.
Esse amor às vezes frívolo,
Ciumento e quase chulo,
Que faz raiva e seus pulos
Através das horas de cada um.

São eles, ladrões do ser,
Que nos acometem a atitudes questionáveis,
Dignas de arrependimento,
Mas que sem eles,
Também não há graça
Dentro da quase toda desgraça
Que é estar no mundo.

Jane Santos

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sem mais nada que amor


O amor é o oxigênio da alma,
Sem ele não há cânticos,
Nem flores, nem poesia,
Nem tudo quanto nos embeleza a vista
E o ego.
O amor dá vida,
Que digam então os filhos
Dos casais apaixonados,
Da nova ou antiga idade.
Que digam até mesmo
Os filhos das prostitutas,
Perdidas em ruas ou cabarés,
Mas que procriam também,
Portanto amam.
O amor não cabe em palavras,
Não está contido em nada,
Mas, para não errar o amor,
Está contido em tudo,
Porque ele é ao mesmo tempo
A contradição e a razão,
O posto e o oposto
Das vidas que se instalam 
Na Terra
E fora dela,
Nos espaços onde mora Deus.
O amor não cabe nos livros,
Mas que seria do amor sem eles,
Porque conhecer também é amar,
Como diria o poeta, 
"Amar e malamar.
Amar, desamar, amar",
Mas sempre amar.
O amor não cabe nos lábios,
Mas também é profecia e precisa correr o mundo,
Em verbos, provérbios africanos, chineses,
Em beijos, desfechos felizes.

Jane Santos

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Filho


Filho amado, nascido da divindade,
Vem para minha vida
Trazer-me felicidade.
Vem com a luz que te ilumina
Iluminar nossa passagem,
Vem com o amor que te anima
Fazer-me amar com intensidade.
Do meu ventre tu és fruto,
Do meu peito a metade,
Da minha alma tu és tudo
E juro-te em verdade,
Que mãe boa eu serei,
Para ti dedicarei
O meu ser, minha lealdade.
Dar-te-ei educação de amor,
Ensinar-te-ei o caminho do bem,
Seguindo as palavras do Senhor,
Serás um trabalhador
E almas conquistarás também.

Façais, Senhor, do meu rebento uma glória,
Dai as dádivas necessárias
Para que sua história
Seja marcada pela mão amiga,
E que a espada e a palavra indigna
Não se apoderem de seu espírito,
Que seu ânimo de amor esteja sempre vivo,
A cada instante, a cada hora.

Meu papel de mãe protetora farei
Para que nosso lindo menino
Se crie e vá
Para todos os recantos falar,
Do perdão, da paz e da caridade.
Para que nosso menino siga
A palavra profunda que tu ensinas,
E ame tanto a mim quanto a seu pai,
E ame o mundo, os homens, os animais,
Falando manso e conhecendo
Os desígnios morais,
Os pormenores intelectuais,
As moradas do Pai,
Para continuar vivendo.

Jane Santos (inspirado)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Escriba



Não me roubem as palavras,
Elas são um calço na existência.
Permitem eu ser importante, gigante,
Não me deixam morrer.
Não me tirem esse bem que me faz bem,
Que permite a poesia quando se menos espera,
Que deixam acontecer a festa no meu sobrado,
Que sobrou da rua no fim da cidade,
Ao lado de um bocado qualquer de casas.
Elas me trazem a paz que não se compra,
Elas são a minha pompa,
O que de melhor posso oferecer,
Com rimas, ou com besteiras a se dizer,
Só pra não cansar do todo-dia-toda-hora.
As palavras são a glória desse espírito infame
Que inventou de ser poeta
Num mundo que passa e segue,
E não vê e não se embebe
Como nós sonhamos no fundo.
Livros vendidos. Multidões de leitores.
Nome na mídia. Dinheiro no bolso.
Que tolos somos nós,
Poesia não dá salário,
Só afago no peito que quer se esvaziar...
Uma taça, por favor.

Jane Santos